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HISTORINHAS DO BB

O AMOR CONSTRÓI

Este pedaço hoje está reservado a uma historinha da qual eu não fui “testemunha ocular”.  Vou vender o peixe pelo mesmo preço que comprei. Sem uma previsão exata quanto à data, asseguro que o episódio deve ter ocorrido em princípios  do ano de 1946.  Nessa época, o BB possuía apenas seis agências em funcionamento no Espírito Santo: Vitória, Colatina, Santa Teresa, São Mateus, Cachoeiro de Itapemirim e Mimoso do Sul.

Era imperioso que o Banco implantasse uma dependência no sul do Estado, não só com o objetivo de alargar as suas operações, mas também com o propósito de desafogar os encargos da agência de Cachoeiro, sobre a qual pesava uma extensa área jurisdicional encabeçada por grandes municípios produtores como Castelo, Alegre, Guaçuí, Muniz Freire, Venda Nova do Imigrante e Iúna.

Do imperioso, passou-se à prática.  Por sugestão do então Gerente de Cachoeiro de Itapemirim (arrisco citar o nome do sr. Arnaldo Messeder), a Direção Geral no Rio de Janeiro determinou que se procedesse a um estudo de viabilidade de localização de uma nova filial na região e, de pronto, nomeou um inspetor para essa função específica, impondo-lhe a condição de emitir parecer apenas  sobre as praças de Guaçuí e Alegre.

Não houve perda de tempo.  O emissário da Direção Geral,  experiente no assunto, lotou a maleta de instruções e partiu para a honrosa missão.  Adredemente, fez comunicado aos prefeitos dessas duas cidades anunciando o seu propósito e fixando datas nas quais estaria presente para as primeiras tomadas de posição.  Roteiro: Rio de Janeiro x Cachoeiro de Itapemirim x Guaçuí e, retornando, parada em Alegre.  De Cachoeiro, partiu diretamente para Guaçuí.  Pegou o trem das 08:00 e, por volta das 13:00  horas já se encontrava na ante-sala do senhor prefeito à espera do titular para as apresentações de praxe e dizer dos motivos que o levavam àquela cidade e à sua presença.

Duas horas, três horas, quatro horas da tarde e o senhor prefeito nada de aparecer no seu gabinete para iniciar a audiência previamente marcada.  Paciente, o emissário da DG ainda teve fôlego para aguardar até as 17:00 horas, quando o chefe do gabinete, meio ofegante, veio anunciar que o senhor prefeito não pôde cumprir a agenda, por conta  do atraso na inauguração de uma escola pública e uma estrada vicinal no então distrito de Dores do Rio Preto.

Aceitas as desculpas entre contrafeito e frustrado, o nosso inspetor recolheu a maleta e, já no hotel, não teve outra alternativa que não a de desembrulhar um amassado pijama e embrenhar-se em dois cobertores de lã capazes de fazer frente ao clima gélido daquela cidade, por conta de um rigoroso inverno que em épocas certas se instala na região do Caparão.

Elaborou um “relatoriozinho” baseado em alguns dados fornecidos pela Agência Municipal de Estatística e, dando mostras  de um certo descontentamento por não ter tido oportunidade de  apresentar um trabalho mais consistente, decidiu prosseguir na missão e, ato contínuo, iniciou viagem de retorno.  “Encarou” o trem das 08:00 que na matina partira de Carangola (MG) e por volta das 10:00 horas  já estava desembarcando na cidade de Alegre. Dava mostras aparentes de estar alegre e feliz.

Nem seria necessário dizer, mas o astuto prefeito alegrense, político de boa cepa, já sabedor da presença do importante emissário do BB na região e meio enciumado pelo fato de ele ter priorizado Guaçuí como a sua primeira parada, revolveu os poderes constituídos da cidade e, na hora aprazada para a chegada do “homem”, só faltou banda de música na bem cuidada plataforma da estação ferroviária do sr. Mercadante  (o Agente),  àquela altura lotada de personalidades políticas e autoridades civis e eclesiásticas. Discursos não faltaram, inclusive um, muito longo, em formato de pregação, proferido pelo então Monsenhor Pavesi.

Sentindo-se “estrela” repentina, o nosso bom inspetor mal teve tempo de acomodar-se no melhor hotel da cidade – o hotel do Vavá -  e já era o convidado de honra  para um lauto banquete que teve como palco o salão de festas do Rio Branco Atlético Clube.  Nesse dia, nada de trabalho.  À tarde, sempre ciceroneado pelo senhor prefeito, teve de comparecer a uma sessão solene na Câmara Municipal onde, de modo bastante apressado, foi-lhe conferido o título honorífico de “Cidadão Alegrense” .

Nada disso demoveu o competente emissário do BB de emitir, ao final do seu relato, uma opinião  justa que viesse a respaldar o parecer  concludente sobre  a localização da futura agência.  Fá-lo-ia, sim, com base em dados convincentes, como sempre fez no curso de outras missões semelhantes, ao cabo das quais, costumeiramente, era-lhe conferida a aprovação da Direção Geral.

Não bastasse isso, eis que o Dr. Cupido se infiltra na história.  Em meio a jantares, bailes, festas e já também um tanto enamorado da cidade, o dinâmico inspetor amoleceu o coração e, homem desimpedido que era, veio a apaixonar-se por uma sedutora balzaquiana integrante da alta sociedade alegrense.  Os dias foram passando, as festas se sucedendo em seqüência, os dois foram se entendendo e o relatório não saía.

Enquanto em Guaçuí o correto inspetor passou menos de 12 horas, a sua permanência em Alegre já estava extrapolando o limite previamente fixado pela DG.   Mas, cadê vontade de ir embora?  Sem o relatório, nem pensar.

Respeitado e responsável que era, o nosso mandatário cobriu-se de brio, arregaçou as mangas, enfiou os dedos na sua surrada Remington portátil e, sem apelação, lavrou a sentença: “Proponho que a futura agência sul do Espírito Santo seja localizada na aprazível cidade de Alegre”. Ponto final. Que ponto final que nada! Dia seguinte, o revigorado inspetor e a sua Diva passaram na casa “Dois Irmãos”,  compraram à vista (turco só gosta de vender à vista) robustas malas de viagem e, felizes, foram fixar residência em frente às areias de Copacabana.

Um ano depois – março de 1947 – a convite dos gestores Francisco Fernandes Santiago e Alberto Rodrigues Pereira, o casal retornou ao Alegre para presidir a cerimônia de inauguração da 7ª  agência do BB no Espírito Santo, hoje, aos 60 anos de existência, pomposamente instalada em prédio próprio na Avenida Dr. Henrique Wanderley, o eterno cartão de visita da cidade, sempre em clima de permanente festival.

Depois disso e convencidos dessa terceira força, somos levados a engrossar a lista dos apologistas desta minúscula e eterna máxima:  “SÓ O AMOR CONSTRÓI”.  Se não constrói, pelo menos ajuda a construir.

Aquiles Paula de Freitas   -   calcanhar51@gmail.com

Vit., jul.2005

 

 

 

 

“Cabra macho” 

Dentre as várias historinhas que já relatei, algumas me conferiram a condição de “testemunha ocular”, e outras me vieram ter às mãos através de narrativas de colegas que delas souberam ou que, na maioria das vezes, vivenciaram-nas nos recintos das agências ou em lugares diferentes, como festinhas de confraternização nas nossas associações, aniversários, churrascadas, etc. 

Esta me foi passada pelo colega Evandro Poltronieri e que teve como palco a sala do café  da agência de Coromandel, interior de Minas, onde tomou posse como integrante do antigo quadro de Portaria – depois guindado à condição de escriturário através de concurso interno - e por lá permaneceu durante trinta anos, até se aposentar na função comissionada de Tesoureiro.  

Segundo o “Poltrô”,  um dos colegas com que mais se afinou, respondia pela alcunha de “Cabra Macho”, por conta da “machesa” que estava sempre a ostentar nas suas querelas e, no cartório do registro civil, conjugado com a pia batismal, recebeu o nome de Tertuliano Xavier de Almeida, nascido e criado na cidade cearense de Quixadá. 

Tanto tempo radicado em Minas Gerais, Tertuliano  acabou por integrar-se inteiramente  ao cotidiano  do “mineirim”, apreciador do pão de queijo e do doce de leite, mas nunca perdeu a pose de “homem valentão”, e não fazia segredo da admiração que sempre demonstrou nutrir pelo famoso conterrâneo das Alagoas Virgulino Ferreira, o temido Lampião. 

Naquela época, as agências não dispunham dos serviços de vigilância, que hoje, ao abrigo da chamada terceirização, estão confiados a empresas especializadas em segurança bancária. Observe-se que, por “medida de segurança”, os atuais vigilantes são, por assim dizer, os donos da cocada preta,  porquanto são eles que, na prática,  decidem se vai haver expediente nos estabelecimentos bancários da cidade.  E a arma deles, além  do “colt” 38, é a deflagração de uma greve geral. Sem segurança, os bancos não encontram amparo na legislação para a abertura de suas portas. E os clientes que se lixem. 

Voltando ao episódio que se passou na agência de Coromandel, segundo a narrativa do “Poltrô”, por mais de uma vez essa filial submeteu-se a uma rotineira vistoria por parte do inspetor José de Ribamar Paranhos.  Rigoroso em excesso, esse mandatário da Direção Geral era conhecido na região pelas “atrocidades administrativas” que praticava, do alto de sua autoridade outorgada pela DG, de par, ainda,  com a sua incontida vocação para propor a destituição de comissionados, sempre a atingir desde os modestos investigadores de cadastro até o posto mais alto da agência, ou seja, o próprio gerente.  

Pois foi numa dessas que o “Riba” se deu mal. No exame aleatório das operações de descontos de duplicatas deferidas pelo Contador Tarcísio Mendes Cordeiro, quando no exercício interino da Gerência, o “incauteloso” inspetor se deparou com uma duplicata de emissão duvidosa – sob a suspeição de tratar-se de um “título frio” – e tentou, de modo grosseiro, passar uma reprimenda no jovem Contador, em pleno expediente, aproveitando a “hora do lanche”, a ponto de, bem “aprumado” e  de dedo em riste, ameaçar-lhe com uma destituição sumária. 

Só que o “bravo” emissário nem desconfiava  que o Tertuliano, recolhido às grades da Tesouraria, era possuidor de um ouvido apuradíssimo, posto à prova, na adolescência,  nas aulinhas de música lá na sua cidade natal, e, “antenado” como sempre, resolveu  tomar as dores do bom Tarcísio. Em defesa, afrontou o inspetor com palavras pouco convencionais ao ambiente de trabalho, e nada demorou para que o bate-boca assumisse proporções desmesuradas, a ponto de os dois se atracarem à toda, com distribuição de bofetões para todos os lados, e a contabilização de várias escoriações em ambos “contendores”. 

Serenados os ânimos, o senhor inspetor tratou logo de encerrar intempestivamente a vistoria, não sem antes propor e conseguir a destituição do Tertuliano da função comissionada de Tesoureiro, sob a alegação de “desacato à autoridade”. E foi justo esse o toque que faltava para que o combativo “Tertúlia” pedisse a sua aposentadoria.  Tempos depois, ao sabor dos ventos, e ainda no uso da sua força física, foi contratado para a função de treinador de goleiros do seu clube do coração, o glorioso Clube Atlético Mineiro.  

Quanto ao inspetor José  de Ribamar,  aplicou-se-lhe o velho dito popular “Quem com ferro fere....”. As suas brigas e discussões passaram a integrar, na DG,  o elenco de reclamações acerca do seu jeito de agir quando em missão oficial, que outra alternativa não teve a INGER – Inspetoria Geral – a não ser a de aplicar-lhe o corretivo da destituição de sua comissão de inspetor, e  “confiná-lo” no arquivo morto de “firmas impedidas”, localizado no subterrâneo do prédio da Rua Primeiro de Março, 66. 

No dizer dos antigos, vale aqui recordar o velho refrão “Como este mundo é pequeno!”, porquanto ele se aplica, em toda extensão, ao episódio aqui relatado.  Numa incrível coincidência, tempos depois, o “Riba” e o “Tertúlia”  - cabelos brancos em profusão - vieram a se encontrar, lado a lado, nas cadeiras numeradas do Maracanã, assistindo a um jogo do campeonato brasileiro, e ambos, torcendo pelo mesmo time, estavam, garbosamente, vestidos com a camisa do “mais querido” Clube Atlético Mineiro. E nenhum dos dois, ali, como nos velhos tempos, teve coragem de cantar de “galo”.  

Aquiles Paula de Freitas – calcanhar51@gmail.com 

 


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