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Dr. Kimura

Aquiles Paula de Freitas - calcanhar51@gmail.com

A agência do BB de Vitória (ES) foi a 21ª inaugurada no Brasil, isso há cerca de oitenta anos. Até o ano de 1968, ela funcionou em prédio próprio localizado em frente aos Correios, na Avenida Jerônymo Monteiro, a principal artéria da Capital. Isso porque, no meado desse ano transferiu-se para nova sede própria, em pomposo prédio de 10 andares, onde hoje se acha instalada a agência Pio XII, na praça do mesmo nome.

Enquanto esse fausto evento não aconteceu, as dependências do prédio velho já estavam, de há muito, a não suportar o grande crescimento que a filial passou a experimentar naquela época, em decorrência do aumento das exportações pelo porto de Vitória, com destaque para o café da família conilon, cuja produção abundante, no norte do Estado, surpreendeu aos mais experimentados plantadores.

O inesperado e inusitado incremento no embarque do nobre produto, aliado, em escala menor, à madeira e ao cacau, refletiu fortemente nas operações da agência, que, por falta de espaço físico, viu-se obrigada a transferir para um andar inteiro do Edifício Santa Mônica, a 200 metros, os setores CAMIO, FIBAN e CACEX.

A historinha que hoje ocupa este espaço, foi-me relatada pelo saudoso Sólon Leão, esse inesquecível colega que tão bem sabia narrar qualquer episódio, que tão bem sabia dar contornos a uma anedota, que tão bem “alçava” um banquinho para proferir, de improviso, uma bela peça oratória, que tão bem, enfim, sabia alardear os dotes da sua privilegiada inteligência.

Naquela época, depois do Gerente e do Contador, a figura mais importante da agência era a do Encarregado de Câmbio, a cuja alçada estava o deferimento de operações de grande vulto, através dos chamados ACCs – Adiantamentos sobre Contratos de Câmbio -, onde, percentualmente, residiam os maiores lucros da filial.

Somente no setor CAMIO eram lotados uns dez funcionários especializados, dentre os quais, além do Chefe-de-Serviço Sólon Leão, militavam Basílio Lobo Leal, Antônio Carlos Ayres, Amilton Barros, Vinícius Leme, Ruy Carnelli, Moacyr da Silveira Figueiredo, além de outros, tendo como timoneiro o Encarregado Moacyr Ewald Borges.

Num salão amplo, longe dos olhos “fiscalizatórios” dos dois principais administradores Guaracy Antunes Carneiro e Hylson Sarmento Batalha, o ambiente no Santa Mônica era por demais descontraído, acolhedor, que mais se assemelhava a uma grande família, onde era visível a amizade reinante entre os seus integrantes.

Descontração e intimidade era o que realmente não faltava no amplo recinto de trabalho, acolhedor de três importantes setores do Banco. A liberdade de tratamento, entre os colegas, se fazia sentir em apelidos carinhosos como seu Tonico, Canelão, Girafa, etc., plenamente absorvidos pelos respectivos titulares Antônio Carlos, Ruy Carnelli e Moacyr da Silveira Figueiredo. Ao “chefe supremo” de todo setor, Dr. Moacyr Ewald Borges, foi conferido o simpático diminutivo “Borginho”. Que ele aceitava de bom grado, mansa e pacificamente.

O CAMIO, por excelência, era um setor bem diferente dos demais, porquanto, como que coincidentemente, agrupava os servidores mais bem humorados, os melhores contadores de “causos”, enfim, os mais “gozadores” de todo o andar. Em matéria de “gozação”, sobressaiam-se o Basílio Lobo Leal e o Moacyr da Silveira Figueiredo.

Dentre todas as suas boas qualidades, o Basílio reunia mais uma, pouco peculiar aos outros companheiros de seção: a de ventríloquo. Nessa época, a televisão no Brasil ainda engatinhava em preto e branco, mas já despertava grande interesse e um dos programas mais chamativos era o de lutas de “teleket” e boxe.

Os mais antigos devem se recordar de nomes como Ted Boy Marino, Verdugo, Scomparim, integrantes e “vedetes” da primeira modalidade, enquanto o Dr. Kimura, professor de artes marciais, era a estrela maior – literalmente – no segmento “boxe para adultos”, com o índice 100% de aproveitamento nas 32 lutas até então realizadas no Brasil.

Assim como o hábito faz o monge, também a arte faz o homem. Detentor de grande presença de espírito, versátil na área da “gozação”, não tardou a povoar o pensamento do Basílio a ideia de “transmitir”, ao vivo, como ventríloquo, uma luta de boxe em 10 rounds entre o famoso lutador japonês Kimura e o não menos famoso boxeador brasileiro “Borginho”.

Primeiro roud, e o Borginho já sentira o peso da luva japonesa. Quase foi a nocaute. Nos segundo, terceiro e quarto rounds, a coisa não foi diferente. Apanhou mais do que boi ladrão. Nos três rounds subsequentes, teve o nariz fraturado e profundo corte no supercílio e outras escoriações no rosto em sangue.

Era porrada que não acabava mais em cima do frágil Borginho. E o “locutor”, a cada bofetada do Kimura, dava uma ênfase especial à narrativa, tal qual um locutor de rádio ao narrar um goooooooooooooooooooooool do seu time do coração.

A essa altura, a luta já estava no oitavo roud. E o dito locutor botando fogo na fogueira: “Lá vem o Kimura com toda fúria pra jogar o adversário na lona. Aplica mais um cruzado de direita no pobre Borginho. O Borginho tá cambaleando! Ele não vai aguentar. Tá apanhando muito. Acho que vai jogar a toalha” . Mas soou a campainha, e mais uma vez o escorraçado Borginho foi salvo pelo gongo.

Por volta das três horas da tarde, corria calmo o expediente no setor, quando o digno Encarregado Moacyr Borges, o sofrido Borginho, já cansado de tanto “apanhar”, mostrou um pouco da sua sisudez e da “contrariedade” em só ter levado desvantagem nos nove rounds da luta, e mais ainda com a agravante da “torcida” contrária do impiedoso narrador.

Foi então que arvorou-se em um autêntico lutador, distribuiu palavrões pra todo lado, mostrou a sua insatisfação pelo modo faccioso com que o embate foi “transmitido” pela TV, desferiu um soco sobre sua mesa e, em alto e bom som, desabafou:

“Chega de apanhar! Se eu não vencer essa luta no último assalto, vou fazer uma farta distribuição de porrada aqui neste tablado e a maior parte vai ser aplicada nesse safado e tendencioso narrador de bosta”. E fez-se o silêncio.




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