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Texto de um funcionário aposentado

Por Raimundo Viana - funcionário aposentado, advogado e professor
universitário, Vice-Presidente da Academia Brejense de Letras

Texto publicado no jornal O Estado do Maranhão



          Dos colegas José Henrique Carvalho, José Arnoldo Martins e
Hélio Dias de Carvalho partiu a iniciativa de os aposentados do Banco
do Brasil reencontrar-nos, mensalmente, em almoço, em restaurante da
cidade, previamente combinado, e sempre alternado. Uma oportunidade
para fazermos a releitura de nosso passado vivido naquela Casa que,
indelevelmente, marcou a vida de cada um.

          Sobre a mesa dois cardápios: um, do restaurante. Outro, só
nosso. Este, de prato único (a reconstituição de fatos e atos que
naquela empresa  fizeram a nossa história comum) mas, de todos
obsessivamente preferido, e sôfregamente degustado. Fala-se de tudo e
de todos. Até mesmo incluem-se no repertório os apelidos de que poucos
escapavam. Alguns até espirituosos e inteligentes. Mas nada além de
manifestação de bom humor, e sempre nos limites da fraternidade.
       
  De agradável recordação é a vida disciplinada a que o Banco
nos habituou. A regra de trabalho e convivência era uma só: a
CIC-Funci, nosso código de conduta e de ética.. Ninguém, do contínuo
ao gerente, ficava imune de suas cominações, nem tampouco a descoberto
de sua proteção. Um compêndio muito transparente de nossas obrigações
e direitos. Uma mini-constituição a iluminar nossos caminhos na vida
funcional.

          Os cargos comissionados eram providos, sem luta fratricida,
com fundamento no mérito pessoal, e de conformidade com o
posicionamento de cada um no quadro de carreira da Empresa. Não havia
espaço para  `jeitinhos", "lero-lero", e outras "lambanças" da
espécie. Os mais  antigos eram dos novos os professores anônimos. Sem
as formalidades da  cátedra nem a postura professoral, educavam-nos
silenciosamente pela  conduta, dentro e fora do Banco.

          Os que chegavam encontravam um ambiente já feito: sadio e
disciplinado, o que lhes facilitava a adaptação. No meu caso, foi bem
mais fácil. Saído, recentemente, do seminário, onde pontualidade era
virtude capital; hierarquia dogma, tive que fazer apenas algumas
alterações em minha rotina de vida. Nenhuma de grande impacto no meu
dia-a-dia. Três delas, inevitáveis: a troca do missal pela CIC
(Codificação das Instruções Circulares); a da batina pela camisa
social, de cor "sóbria"; a do colarinho pela gravata. O Banco, não há
negar, era uma escola de vida por excelência. A disciplina nos
congregou. O tratamento indiferenciado nos fez família de princípios e
objetivos definidos. O emprego do Banco era opção de vida. Ponto de
chegada. Pretendido por muitos jovens, e alcançados por poucos. A
porta de entrada era uma só: o gargalo estreito do concurso público,
reconhecidamente sério e transparente. Servimos a um banco de coração
social. O lucro não era o fim único de suas atividades, obsessivamente
perseguido. A prioridade era a assistência creditícia aos mais
desafortunados. Em sua maioria, pequenos produtores rurais. Uma das
carteiras mais importantes do Banco, a Creai (Carteira de Crédito
Agrícola), cuidava exclusivamente dos despossuídos do campo... Não
dispúnhamos dos recursos tecnológicos de hoje. Os computadores da
época eram as máquinas Remington de "guerra". E sua memória, centenas
de  fichas em que, cuidadosa e zelosamente, se controlavam as
operações  diárias.

         Recebíamos sem atraso, acrescidos da proteção maternal da
Cassi (plano de  saúde), um salário dígno que, ainda hoje, nos mantém
vivos na aposentadoria. Em contrapartida, executávamos nossa tarefas
com as energias da alma, untadas dos sentimentos do coração. Nutria-se
uma convivência solidária de tom fraternal. Até que o tempo passou! E
o Banco mudou! Em dado momento, um a um, alcançou-nos a
aposentadoria. Dispersou-nos! E empurrou-nos para o isolamento. Uns
mais, outros menos. Nem tudo desapareceu. O espírito de família
permaneceu subjacente,
escorado no sentimento da saudade. E nesse terreno propício, vicejou
rápido a iniciativa do REENCONTRO, de todo louvável e bem-vinda. O
papo  é sadio e divertido. Temperado sempre de bom humor. Uma terapia,
sem  dúvida.
Vale a pena participar! Todos lá! Família é isso!...


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