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EXCURSÕES DA AFABBES

Apesar do tempo decorrido, porquanto somente agora tivemos conhecimento desta matéria, vale a pena a reprodução da bela crônica do colega poeta e escritor Genilton Vaillant de Sá, a propósito de uma concorrida excursão promovida pela Afabbes à encantadora estância paulista Campos do Jordão. Tudo correu maravilhosamente bem, a contar, inclusive, das rodadas de vinho à beira da lareira, a não ser o desacerto nos alojamentos reservados aos capengados colegas Abelardo de Castro Salazar, Genilton Vaillant de Sá e Percy de Oliveira. Vale a pena conferir e parabenizar o Genilton por mais uma obra de sua inspirada pena.


O QUARTO DO QUARTO

Genilton Vaillant de Sá

Era mais uma excursão de sucesso organizada pela famosa dupla AFABBES/AABB-Vitória (ES) e sob o mesmo abnegado empenho da tríade Anna / Dório /Fátima. Data: 25 a 29.08.2004. Destinos principais: Penedo(RJ) e Campos do Jordão (SP).

Como sempre,uma verdadeira festa sobre rodas: brincadeiras, cantorias, risos, comemorações, sorteios,brindes, confraternizações, acepipes com regalos e paisagens de arregalar os olhos. Dentro e fora do ônibus tudo era deslumbrante.

Já na primeira parada, em Penedo (RJ), terra do poeta visionário finlandês Toivo Uuskallio, nossos olhos, poderosas lentes da alma, percorreram incansáveis as anfractuosidades da penedia em redor.Um mundo flório, fantástico e multicolorido inebriava-nos de muito prazer e emoção. Foram dois dias de total deslumbre.

Na parada seguinte, em Campos do Jordão, nosso foco ocular, ainda encantado e intumescido de satisfação, desaguou torrencialmente em um mar vivo de outras múltiplas e belas florilégias por todo os campos e cantos da cidade.

Admirado com toda aquela beleza, eu logo percebi que a “mãe vera” e toda a sua família morava mesmo por ali, naquela fascinante plaga, e que só mesmo a sua também linda “primavera” é quem, nas férias de setembro a dezembro de cada ano, ousava sair para dar um gostoso bordejo de exibição pelo país.

Todavia, como há muito sentencia impiedosamente o velho adágio de que em olhos coloridos também entra cisco,lamento dizer que, naquele dia, nem tudo foi flores.

A bem da verdade eu não posso afiançar, mas eu tenho uma ligeira desconfiança de que a distribuição dos apartamentos no Satélite Esporte Clube Banco do Brasil, naquele dia, fora rigorosamente feita pelo critério de deficiência física dos seus hóspedes. Eu não sei não, mas eu acho que foi. Pelo menos para o caso do nosso apartamento eu acredito que sim. Assuntem bem o trio: Abelardo Salazar: isquialgia; Percy: artrite nas pernas, e eu: joelho esquerdo travado. Dedução lógica e harmoniosa: AP Conxo Trio.

Mas, o pior estava por vir.Acreditem! Abelardo ao pegar a chave do nosso “AP Conxo Trio” teve o cuidado de bem informar-se, afinal estávamos exaustos e queríamos chegar logo ao apartamento para aquele merecido e relaxante banho:

...Senhorita, por favor, prá que lado fica o 424?

No meio daquela confusão toda, característica de uma turba de turistas que acabam de chegar de viagem, a recepcionista foi educada, porém bastante concisa:

... Elevador até o terceiro andar, depois escada até o quarto.

Aos trancos e barrancos, lá fomos nós sem entender direito porque o elevador não ia direto até o quarto andar. Mas convenhamos: um andar a mais ou um andar a menos que diferença agora vai fazer nessa nossa já sôfrega andejada?!

Assim, já no terceiro andar, pegamos a primeira escada que vimos pela frente.

... Vamos nessa!

Estava tudo escuro. Procuramos um interruptor, e nada! Decidimos, pois:

Vamos no tato mesmo! Vamos lá!

Mas que dificuldade danada! A escada, além de muito estreita, principalmente para o nosso nada convencional porte atlético, era íngreme e lembrava muito bem um maldito caracol. Agora só faltava ser escorregadia.

Devagar, bem devagarzinho, como uma lesma, fomos tateando a parede com os ombros ou com o que dava para encostar, já que, apesar das dificuldades inerentes às articulações dos nossos membros inferiores, estávamos apinhados de troços pelos troncos e braços. Cada degrau era um retumbante “ufa”, e até mesmo outros sons bem estranhos. Tão estranhos que, muitas vezes, faziam coro com o “ufa” da própria pessoa.

Mancando, tropeçando e muito cansados, finalmente chegamos ao topo da escada: Abelardo na frente, eu no meio e Percy na retaguarda.Todos três ali juntos e bem espremidos nos últimos degraus. É, mas o sofrimento parecia mesmo não ter fim. Bem diz o ditado: “Desgraça pouca é besteira!” E é mesmo: a escada não tinha patamar e, ainda, a porta lá de cima parecia estar emperrada. Que agonia! Abelardo – Ah! O Abelardo – cabra arretado, decidido que só, não perdeu tempo algum: meteu logo a mão na maçaneta com pulmões: “Abracadabra!” Foi quando, inesperadamente, uma voz feminina, muito trêmula, gritou do lado de lá da porta:

... Tem gente!

Confesso que arrepiei dos pés à cabeça. Foi terrível! Agora vocês imaginem o verdadeiro desastre que foi descer depressa e de ré aquele escuro e apertado caracol que para subir de frente já não fora nada fácil. O negócio foi esquecer das pernas e dos apetrechos e pedir a ajuda de Deus. Nessa hora nenhum provérbio podia falhar, e cada um apelou para o seu:

... Carro apertado é que anda!

... Cada um por si, Deus por todos”

... Prá baixo todo santo ajuda!

Ufa! Ufa! Arre, égua! De novo no terceiro andar e refeitos do susto, reanalizamos a orientação da recepcionista e só então descobrimos que a referida escada não nos levava ao quarto andar e sim ao quarto de dormir.

Diacho, sô! Porque não pensamos nisto antes?

Aí foi só encontrar a escada que nos levava ao apartamento 424 e tudo bem! Simples, não?!

Enfim, quando devidamente acomodados, foi que nos bateu um pensamento deveras horripilante: já imaginaram se a porta da escada estivesse só encostada e a mulher bem à vontade na cama esperando pelo seu marido que só “foi ali e volta já”, e ai depara com três elementos estranhos arrastando malas e pernas pelo seu quarto afora!... Por certo o grito de “tem gente”seria o de “socorro!” E nessa hora, meu chapa, o único provérbio que certamente se soltaria uníssono e em bom som da nossa garganta, seria:

... Salve-se quem puder!

A partir daí nada mais seria o mesmo: o provérbio deixaria de ser filosófico; os conxos de mancar, a porta de ter tranca; a escada de ter degraus; o caracol de ser ziguezagueado...e, por fim, nós três estaríamos hoje comemorando todos os recordes de atletismo da paraolimpíadas batidos já naquela ocasião.





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