HISTORINHAS DO
BB - Só ares na
montanha
Desta
feita, como também de poucas outras, vou emprestar o meu modesto
nome como coadjuvante de mais uma historinha do nosso BB,
porquanto, por motivos que independeram da minha vontade,
lá estava eu, “ao vivo”, participando da cena.
O
papel principal foi destinado ao nobre colega Antônio Soares
Fernandes, que hoje, do alto dos seus 97 anos (nascido a
07/11/1912), está a esbanjar invejável saúde
e cuidando dos rabiscos que ele produz e depois transforma em
inspirados e maravilhosos versos.
Não
apenas os rabiscos compõem o cotidiano do nosso caríssimo
colega. Além do apego à leitura de bons
livros, o seu passatempo principal está voltado para
as viçosas hortaliças cultivadas no quintal de sua
aprazível morada, lá nas alturas da Pedra Azul, onde, com
perdão do infame trocadilho, “só ares de montanhas”
estão a servir-lhe de salutar companhia.
Estes
meus modestos rabiscos não têm por objetivo discorrer, de
modo curricular, sobre a bonita trajetória de sua
carreira no BB. Reservo-me, todavia, ao agradável dever de
deixar patenteado que ela atingiu o seu ponto mais alto, no
posto da então importante comissão de
Inspetor, da qual se desvinculou em favor da merecida
aposentadoria por tempo de serviço, ocorrida há
quase quarenta anos.
No
Banco, foram marcantes as posições adotadas pelo
então Chefe de Serviço dos setores de Cadastro,
Empréstimos e de Ordens de Pagamento, adotadas não apenas
em razão da sua fisionomia contraída, sisuda, mas,
sobretudo, pela fiel obediência às regras que
disciplinavam a condução desses importantes misteres.
Colegas
como os saudosos Roberto de Oliveira – Gifu -, Argentino de Almeida
Pinto e outros, nunca mediram palavras para exteriorizar as
qualidades do seu Soares, como chefe, como amigo, como
disciplinador, e, acima de tudo, como o competente e preparado
supervisor que sempre demonstrou ser.
Afora
as suas alardeadas qualidades funcionais e ante a sisudez que lhe era
intrínseca, é bem oportuno lembrar-se de uma
passagem ocorrida com ele e que certa feita foi contada pelo
próprio, em tempos de descontração, a
ninguém mais do que a este despretensioso escriba.
Nem
havia ainda gratuidade para idosos nos minguados ônibus que
circulavam dentro da capital, e o seu Soares já gostava de
sentar-se nos bancos da frente, logo atrás do motorista, para
desfrutar, “em primeira mão”, dos ares frescos que corriam pela
Avenida Beira-Mar até a Praia de Santa Helena, onde residia,
tão logo encerrasse o expediente normal da então
agência da Avenida Jerônymo Monteiro.
Certo
dia, como passageiro solo, acomodado no lugar de costume, pensativo na
renitente“diferença” do levantamento da “orpag”, a ser
desvendada no dia seguinte, sisudez à mostra, nem se deu conta
de que o motorista estava alinhando o espelho retrovisor, quando,
subitamente, deparou-se com uma “carranca” um tanto assustadora, de uma
pessoa extremamente introvertida, com “cara de poucos amigos” e,
digamos assim, “pronta pra briga”.
Incrédulo,
limpou os óculos de fundo de garrafa e, estupefato, constatou
que as lentes do retrovisor estavam retratando, naquele momento, nada
mais nada menos, do que a sua própria imagem. Refez-se do
susto, abriu para si o seu próprio sorriso, e segredou
consigo mesmo: “Agora eu entendo por que meus funcionários
têm tanto respeito por mim. Cara feia põe mesa,
sim”.
A
“cara de mau” de seu Soares não traduzia, nem de longe, toda a
extensão do seu coração. A despeito de se
considerar, no seu tempo, um dos funcionários mais antigos da
agência de Vitória e, talvez por isso, ser colimado pelo
respeito de tantos quantos com ele conviveram, era um dos chefes
que sempre emprestava solidariedade a qualquer colega, seja de
ordem profissional, seja no campo da afetividade, na hora em que deve
prevalecer o sempre bem acolhido calor humano.
Naqueles
tempos, sem cheque especial, o recuso para conseguir-se um dinheiro
extra estava nos famosos “papagaios” empinados nos outros bancos da
praça. O mais procurado, era o “Banco do seu Tito”, numa
alusão ao então Banco Hipotecário e
Agrícola do Estado de Minas Gerais, que tinha na gerência
o sempre acolhedor senhor Tito Lívio Vincenzi.
Não
raro, quando seu Soares desconfiava que algum funcionário do seu
setor estava “batalhando” por um empréstimo e
encontrava-se “esbarrado” na obtenção de dois
avalistas, a solução não se fazia por
esperar.
“Meu
filho, procure o banco do Tito que ele vai te atender somente com o meu
aval”. Tiro certeiro no alvo certo. Poucas horas depois e
sorridente, tava lá o colega diante da mesa do chefe, para, com
a grana no bolso, estender – lhe o seu patenteado agradecimento.
E
foi assim, entre competência, dignidade e afetividade, que o seu
Soares foi construindo, tijolo, por tijolo, a sua vitoriosa
trajetória de bancário do BB, na qual conquistou o
posto máximo da carreira de Contabilidade, adicionada à
concorrida comissão de Inspetor.
Mas
voltemos aos idos de 1962, quando ele era o chefe do setor de Ordens de
Pagamento, na velha agência da Avenida Jerônymo Monteiro. O
mês eu não me recordo. Lembro-me, tão somente de
que, removido no posto efetivo, aqui tomei posse em meados daquele ano
e, de pronto, seu Rodrigues designou-me para o setor de Orpag.
Minha
primeira moradia deu-se no Edifício Nemézio Cruz, na
recém-inaugurada avenida General João Baptista
Mascarenhas de Moraes, logo alcunhada de avenida Beira-Mar. Dez
dias ali instalado, prédio sem garagem, e uma Kombi de campanha
eleitoral do então candidato a deputado federal João
Calmon, fez, do meu fusquinha vermelho, um formidável
sanduíche.
Dentre
os meus novos colegas, só conhecia um: Colmar Firme
Coutinho, com quem tinha trabalhado em duas agências do
interior. Literalmente “a pé”, numa cidade grande
desconhecida, tornei-me seu carona oficial, nas idas e vindas do
trabalho.
Pois
foi justo nesse período conturbado, e de obrigatória
adaptação, colégio das crianças, e tudo
mais, que iria dar-se o enlace matrimonial de uma das filhas do
seu Soares – Glícia, arrisco em afirmar - , programado para um
sábado, na Igreja Santa Rita de Cássia e
recepção em um cerimonial próximo à Praia
de Santa Helena.
Colmar,
o meu cicerone oficial, achava-se em viagem ao Rio de Janeiro, num
“vistoso” Austin A-40, na cor verde, recém-adquirido junto
à concessionária Larica & Cia., à base de um
módico financiamento.
Enquanto
eu, sem condução própria, “perdido” na
capital, meio sem rumo, com apenas quinze dias de instalado,
só me movimentada para onde soprasse o vento. Não fazia a
menor ideia da localização da tal igreja, tanto quanto do
dito cerimonial.
Soube,
dias após, que a Santa Rita foi pequena para abrigar a colossal
massa de convidados que acederam ao convite desse honrado pai de
família, cuja grande amizade teve os primeiros laços
“costurados” durante o tempo em que serviu no Terceiro Batalhão
de Caçadores, isso no ano de 1930.
Em
1962, o quadro de Vitória somava 160 funcionários,
contados, do servente, ao senhor Gerente. Caprichoso como sempre
foi, seu Soares teve o cuidado de convidar, de viva voz, cada um dos
seus colegas, em cujo rol eu fui incluído, a despeito do
curtíssimo convívio com o anfitrião, ante os meus
minguados quinze dias de agência.
Segunda-feira
é o dia em que ”tudo começa de novo”. Sem a
minha carona oficial, peguei o “bonde errado” – bonde, mesmo,
da Companhia Central Brasileira, hoje Escelsa -, fui dar com os
costados até o bairro Fradinhos, que era o fim da linha
Centro-Jucutuquara.
Com
quase quinze minutos de atraso, escapei, por pouco, da folha
suplementar que sempre integrou o “cardápio” funcional do
severo senhor Rodrigues. Aos dezesseis minutos o “ponto”
estava definitivamente encerrado e tempestivamente recolhido pelo
irreverente Jorge Freire da Trindade, o colega que se travestia de
“segurança” do contador.
Superada
a crise do horário, encaminhei-me,
incontinênti, à mesa do chefe Soares para
cumprimentá-lo pela festa do casamento e explicar-lhe os motivos
da minha ausência, quando, em meio às minhas primeiras e
tímidas palavras, fui peremptoriamente interrompido:
“Meu
filho. Não precisa explicar nada. Justificativa
igual à sua, eu já recebi cento e cinquenta e
nove. Prepara, urgente, esta ordem telegráfica para
Londrina, que o cliente está esperando no
balcão”. E mais não disse. E precisava?
Aquiles
Paula de Freitas - calcanhar51@gmail.com
|